Este trabalho tem como proposta uma
comparação entre o filme Narradores de Javé, da diretora Eliane Caffé, filmado
em 2003, e os conceitos de cultura, memória e patrimônio cultural trabalhados
na disciplina de Iniciação à Museologia, com o objetivo de uma reflexão sobre o
assunto no caso brasileiro, tendo em vista suas estratégias no âmbito de
preservar o patrimônio cultural nacional ao longo da história.
O filme Narradores de Javé tem
início com uma conversa casual em um pequeno bar à beira de um rio, quando
Zaqueu conta, com ar saudosista, a história de sua antiga cidade chamada Javé,
situada no sertão baiano, a qual sumiu com a construção de uma represa. Segundo
os relatos de Zaqueu, com o intuito de salvar Javé da inundação, os moradores
procuram Antônio Biá, o único morador do vilarejo que sabe escrever. A ideia
era escrever os feitos da cidade em um livro em colaboração com os moradores
para transformar Javé, segundo Zaqueu, “em patrimônio histórico de valor
comprovado em documento científico”. Por outro lado, Biá é extremamente odiado
pela população, pois, devido à provável extinção de seu cargo nos correios, ligado
diretamente ao analfabetismo de Javé, Biá mandava cartas contando fofocas dos
moradores da cidade.
Ao longo do filme, notamos uma
tentativa de Biá, apesar das traquinagens, de um resgate da cultura de Javé
através da memória, da história oral. Apesar da ideia de cultura que muitas
pessoas têm, ligada a uma pessoa intelectual, inteligente, culta no sentido
literal da palavra ou até mesmo nascida em uma família de certo padrão
financeiro, aqui entendemos de uma forma mais técnica. Segundo Laraia (2006, p.
28), expondo as ideias de Tylor, a cultura é “todo comportamento aprendido,
tudo aquilo que independe de uma transmissão genética, como diríamos hoje”.
Deste modo, vemos o povo de Javé rico culturalmente. Podemos ainda notar que,
apesar de não citar a idade da cidade, o personagem Biá, de certo modo como
ouvinte, vai desvendando o vilarejo com aquilo que, segundo Laraia (2006, p.
36), Franz Boas chamou de particularismo histórico, ou seja, “cada cultura
segue seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que
enfrentou”. Assim, não podemos descaracterizar o povoado de Javé culturalmente,
uma vez que a história é contada e recontada diversas vezes por seus moradores.
É interessante notar que a todo o
momento há uma ressignificação da história de Javé. Como já citado, a falta de
pessoas letradas na cidade fez com que não houvesse documentos que contassem a
história da cidade. Então, a todo o instante a memória de Javé é apresentada de
modo controverso, pois claramente as pessoas, não só na ficção, tendem a
manipular a história em seu favor. O próprio Biá durante o filme diz a um de
seus relatores que “uma coisa é o fato acontecido, outra coisa é o fato
escrito. O acontecido tem que ser melhorado no escrito, de uma forma melhor,
para que o povo creia no acontecido”. Se analisarmos de uma forma histórica,
faz muito sentido o que Antônio Biá comenta, bastando uma rápida leitura nos
documentos históricos que resgatam a memória do povo brasileiro. Deste modo, a
análise da memória social é extremamente complicada, pensando no sentido
polissêmico do conceito, não podendo essa memória ser estudada por esta ou
aquela disciplina, e sim sendo entendida no seu contexto cultural e social,
pois não se pode esquecer que a memória se gera no presente de fatos acontecidos
no passado. Jô Gondar (2005, p. 18) nos
lembra muito bem, e cabe aqui relacionar de forma direta com Narradores de
Javé, que “toda a perspectiva envolve a escolha de um passado e a aposta em um
futuro”, ficando clara a intencionalidade do livro de Javé, com os fatos heroicos
do passado de seu povo com o intuito de provar o valor histórico-cultural da
cidade para impedir a iminente inundação.
Vale retomar a ideia expressada pelo
personagem Zaqueu em relação à solução do problema “javélico”, que estava
precisamente em “transformar a cidade em patrimônio histórico” para não ser
apagada dos mapas. Cabe lembrar que, em um primeiro momento, podemos até olhar
para Javé com certo preconceito devido a sua situação precária. Contudo,
devemos ter como foco o fato de que a identidade de um país não se faz apenas
de povos tidos como dominantes. Nesse caso, essa identidade que caracteriza o
Brasil está ligada ao final do século XVIII, com a Revolução Francesa, momento
em que todos contribuem, não só uma elite dominante, para um melhor
esclarecimento de nossas raízes. No caso da obra cinematográfica, a estratégia
é exatamente essa, preservar a identidade de um povo. No âmbito científico, graças
à contribuição do francês Hugues de Varine-Bohan, citado por Lemos (1987, p.
8), podemos entender o Patrimônio Cultural de modo bem amplo, pois foi o
professor Varine-Bohan “quem nos fez encarar a problemática do Patrimônio
Cultural de modo mais abrangente”. Deste modo, Javé iria enquadrar-se de alguma
forma nas três divisões de elementos sugeridas pelo professor francês.
A ideia de preservação do Patrimônio
Cultural não é de agora, muito menos do filme Narradores de Javé. A luta para a
preservação de nossas memórias vem do século XVIII. Apesar de iniciar com um
nobre português, com o intuito de “resgatar” o Palácio das Duas Torres em
Pernambuco, essa ideia tomou força mesmo no século XX. Vale lembrar que passamos
pelo século XIX tentando nos esquecer de nossos dominadores europeus destruindo
nossas memórias, apesar de ainda termos um imperador europeu no comando de
nosso manipulável Brasil. Voltando ao século XX, a partir dos anos vinte vemos
uma tentativa de preservação do nosso patrimônio. Contudo, a intenção não era a
preservação do patrimônio popular, e sim a de um nacionalismo principalmente
ligado aos bens imóveis, inclusive tendo como uma das figuras centrais o
integralista Gustavo Barroso. Cabe aqui lembrar que, se Javé estivesse situada
nesse contexto, não se teria sequer cogitado a ideia de se escrever o livro dos
causos “javélicos”. De qualquer forma, a ideia mais consistente para a preservação
do Patrimônio Cultural no Brasil tem seus primeiros passos na década de 1920.
A década de 1930 é muito importante no
que diz respeito às questões de preservação, a se contar pelo convite do
Governo Federal ao escritor Mário de Andrade para a criação de um órgão ligado
à preservação do patrimônio histórico e artístico nacional. O anteprojeto de
Mário de Andrade nos mostra a surpreendente visão deste homem, pondo lado a
lado tanto as manifestações eruditas quanto as populares. Tal feito pode nos
parecer sem importância, mas na época não era comum se pensar assim. A entrada
do poeta na questão de preservação do nosso patrimônio resultou ainda na
criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).
No projeto de Mário de Andrade havia
oito categorias para as obras de arte, sendo elas: arte arqueológica,
ameríndia, popular, histórica, erudita nacional, erudita estrangeira, aplicadas
nacionais e aplicadas estrangeiras. Em uma rápida comparação com o filme
Narradores de Javé, poderíamos talvez tentar enquadrar Javé, com a intenção de
salva-lá, em alguma dessas categorias. Vejamos: na arte ameríndia, poderíamos
retratar as lendas, pois, apesar de não ser citado nada de muito relevante,
vemos que os moradores da cidade têm o dom de rememorar o passado, bastando
prestar atenção nas histórias de Indaléscio e Maria Dina. Além da arte
ameríndia, poderíamos incluir a arte popular e a histórica, vistas claramente
ao longo do filme.
Portanto, é a partir dos anos 2000
que começamos a ter uma visão mais real do que nos remete verdadeiramente para a
memória e a cultura do nosso povo. A valorização do patrimônio imaterial,
aquele de extrema valia para pessoas humildes, porém riquíssimas culturalmente
como as de Javé, começa a ocorrer no âmbito de sua história e identidade. Como
vimos, a evolução no desejo de preservar tem um longo caminho percorrido e que
talvez jamais se complete devido à complexidade do tema. A ideia de se
preservar o patrimônio não físico é um passo à frente, haja vista que não só o
monumento em si contém uma grande história para nos contar, como também a
tradição, os costumes, o não palpável nos revelam muito de nossas origens.
Referências
GONDAR,
Jô. Quatro proposições sobre memória social. In: GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera (Org.).
O que é memória social? Rio de
Janeiro: Contra Capa Livraria/Programa de Pós-graduação em Memória Social da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005. p. 11-26.
LARAIA,
Roque de Barros. Da natureza da cultura ou da natureza à cultura. In: ___. Cultura, um conceito antropológico. 20.
ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. p. 25-52.
LEMOS,
Carlos. O que é patrimônio histórico. São
Paulo: Brasiliense, 1987.

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