quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Reflexão sobre o filme "Narradores de Javé"



           Este trabalho tem como proposta uma comparação entre o filme Narradores de Javé, da diretora Eliane Caffé, filmado em 2003, e os conceitos de cultura, memória e patrimônio cultural trabalhados na disciplina de Iniciação à Museologia, com o objetivo de uma reflexão sobre o assunto no caso brasileiro, tendo em vista suas estratégias no âmbito de preservar o patrimônio cultural nacional ao longo da história.
            O filme Narradores de Javé tem início com uma conversa casual em um pequeno bar à beira de um rio, quando Zaqueu conta, com ar saudosista, a história de sua antiga cidade chamada Javé, situada no sertão baiano, a qual sumiu com a construção de uma represa. Segundo os relatos de Zaqueu, com o intuito de salvar Javé da inundação, os moradores procuram Antônio Biá, o único morador do vilarejo que sabe escrever. A ideia era escrever os feitos da cidade em um livro em colaboração com os moradores para transformar Javé, segundo Zaqueu, “em patrimônio histórico de valor comprovado em documento científico”. Por outro lado, Biá é extremamente odiado pela população, pois, devido à provável extinção de seu cargo nos correios, ligado diretamente ao analfabetismo de Javé, Biá mandava cartas contando fofocas dos moradores da cidade.
            Ao longo do filme, notamos uma tentativa de Biá, apesar das traquinagens, de um resgate da cultura de Javé através da memória, da história oral. Apesar da ideia de cultura que muitas pessoas têm, ligada a uma pessoa intelectual, inteligente, culta no sentido literal da palavra ou até mesmo nascida em uma família de certo padrão financeiro, aqui entendemos de uma forma mais técnica. Segundo Laraia (2006, p. 28), expondo as ideias de Tylor, a cultura é “todo comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de uma transmissão genética, como diríamos hoje”. Deste modo, vemos o povo de Javé rico culturalmente. Podemos ainda notar que, apesar de não citar a idade da cidade, o personagem Biá, de certo modo como ouvinte, vai desvendando o vilarejo com aquilo que, segundo Laraia (2006, p. 36), Franz Boas chamou de particularismo histórico, ou seja, “cada cultura segue seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou”. Assim, não podemos descaracterizar o povoado de Javé culturalmente, uma vez que a história é contada e recontada diversas vezes por seus moradores.
            É interessante notar que a todo o momento há uma ressignificação da história de Javé. Como já citado, a falta de pessoas letradas na cidade fez com que não houvesse documentos que contassem a história da cidade. Então, a todo o instante a memória de Javé é apresentada de modo controverso, pois claramente as pessoas, não só na ficção, tendem a manipular a história em seu favor. O próprio Biá durante o filme diz a um de seus relatores que “uma coisa é o fato acontecido, outra coisa é o fato escrito. O acontecido tem que ser melhorado no escrito, de uma forma melhor, para que o povo creia no acontecido”. Se analisarmos de uma forma histórica, faz muito sentido o que Antônio Biá comenta, bastando uma rápida leitura nos documentos históricos que resgatam a memória do povo brasileiro. Deste modo, a análise da memória social é extremamente complicada, pensando no sentido polissêmico do conceito, não podendo essa memória ser estudada por esta ou aquela disciplina, e sim sendo entendida no seu contexto cultural e social, pois não se pode esquecer que a memória se gera no presente de fatos acontecidos no passado.  Jô Gondar (2005, p. 18) nos lembra muito bem, e cabe aqui relacionar de forma direta com Narradores de Javé, que “toda a perspectiva envolve a escolha de um passado e a aposta em um futuro”, ficando clara a intencionalidade do livro de Javé, com os fatos heroicos do passado de seu povo com o intuito de provar o valor histórico-cultural da cidade para impedir a iminente inundação.
            Vale retomar a ideia expressada pelo personagem Zaqueu em relação à solução do problema “javélico”, que estava precisamente em “transformar a cidade em patrimônio histórico” para não ser apagada dos mapas. Cabe lembrar que, em um primeiro momento, podemos até olhar para Javé com certo preconceito devido a sua situação precária. Contudo, devemos ter como foco o fato de que a identidade de um país não se faz apenas de povos tidos como dominantes. Nesse caso, essa identidade que caracteriza o Brasil está ligada ao final do século XVIII, com a Revolução Francesa, momento em que todos contribuem, não só uma elite dominante, para um melhor esclarecimento de nossas raízes. No caso da obra cinematográfica, a estratégia é exatamente essa, preservar a identidade de um povo. No âmbito científico, graças à contribuição do francês Hugues de Varine-Bohan, citado por Lemos (1987, p. 8), podemos entender o Patrimônio Cultural de modo bem amplo, pois foi o professor Varine-Bohan “quem nos fez encarar a problemática do Patrimônio Cultural de modo mais abrangente”. Deste modo, Javé iria enquadrar-se de alguma forma nas três divisões de elementos sugeridas pelo professor francês.
            A ideia de preservação do Patrimônio Cultural não é de agora, muito menos do filme Narradores de Javé. A luta para a preservação de nossas memórias vem do século XVIII. Apesar de iniciar com um nobre português, com o intuito de “resgatar” o Palácio das Duas Torres em Pernambuco, essa ideia tomou força mesmo no século XX. Vale lembrar que passamos pelo século XIX tentando nos esquecer de nossos dominadores europeus destruindo nossas memórias, apesar de ainda termos um imperador europeu no comando de nosso manipulável Brasil. Voltando ao século XX, a partir dos anos vinte vemos uma tentativa de preservação do nosso patrimônio. Contudo, a intenção não era a preservação do patrimônio popular, e sim a de um nacionalismo principalmente ligado aos bens imóveis, inclusive tendo como uma das figuras centrais o integralista Gustavo Barroso. Cabe aqui lembrar que, se Javé estivesse situada nesse contexto, não se teria sequer cogitado a ideia de se escrever o livro dos causos “javélicos”. De qualquer forma, a ideia mais consistente para a preservação do Patrimônio Cultural no Brasil tem seus primeiros passos na década de 1920.
            A década de 1930 é muito importante no que diz respeito às questões de preservação, a se contar pelo convite do Governo Federal ao escritor Mário de Andrade para a criação de um órgão ligado à preservação do patrimônio histórico e artístico nacional. O anteprojeto de Mário de Andrade nos mostra a surpreendente visão deste homem, pondo lado a lado tanto as manifestações eruditas quanto as populares. Tal feito pode nos parecer sem importância, mas na época não era comum se pensar assim. A entrada do poeta na questão de preservação do nosso patrimônio resultou ainda na criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).
            No projeto de Mário de Andrade havia oito categorias para as obras de arte, sendo elas: arte arqueológica, ameríndia, popular, histórica, erudita nacional, erudita estrangeira, aplicadas nacionais e aplicadas estrangeiras. Em uma rápida comparação com o filme Narradores de Javé, poderíamos talvez tentar enquadrar Javé, com a intenção de salva-lá, em alguma dessas categorias. Vejamos: na arte ameríndia, poderíamos retratar as lendas, pois, apesar de não ser citado nada de muito relevante, vemos que os moradores da cidade têm o dom de rememorar o passado, bastando prestar atenção nas histórias de Indaléscio e Maria Dina. Além da arte ameríndia, poderíamos incluir a arte popular e a histórica, vistas claramente ao longo do filme.
            Portanto, é a partir dos anos 2000 que começamos a ter uma visão mais real do que nos remete verdadeiramente para a memória e a cultura do nosso povo. A valorização do patrimônio imaterial, aquele de extrema valia para pessoas humildes, porém riquíssimas culturalmente como as de Javé, começa a ocorrer no âmbito de sua história e identidade. Como vimos, a evolução no desejo de preservar tem um longo caminho percorrido e que talvez jamais se complete devido à complexidade do tema. A ideia de se preservar o patrimônio não físico é um passo à frente, haja vista que não só o monumento em si contém uma grande história para nos contar, como também a tradição, os costumes, o não palpável nos revelam muito de nossas origens.

 Referências
 GONDAR, Jô. Quatro proposições sobre memória social. In: GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera (Org.). O que é memória social? Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria/Programa de Pós-graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005. p. 11-26.
LARAIA, Roque de Barros. Da natureza da cultura ou da natureza à cultura. In: ___. Cultura, um conceito antropológico. 20. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. p. 25-52.
LEMOS, Carlos. O que é patrimônio histórico. São Paulo: Brasiliense, 1987.

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