Em
1987, Mário Chagas coordenou na UNI-RIO uma pesquisa que alunos deveriam
realizar nas ruas da cidade maravilhosa, com o objetivo de ouvir das pessoas o
que a palavra museu fazia vir a sua mente. Hoje talvez se recebam ainda as
mesmas respostas: “museus são apenas um lugar onde
existem coisas velhas, objetos velhos (que o público visita)” (CHAGAS, 2013).
Com um estigma negativo em relação à Instituição que deveria ser um centro de
cultura e lazer, o museu gera ainda na maioria da população um sentimento de
depósito de materiais antigos que servem apenas para ficar expostos ao longo do
tempo. Para solucionar tal problema, é essencial a iniciativa de pesquisas em
museus que façam conhecer melhor não só seus visitantes, mas também possíveis
frequentadores para uma melhor relação dialógica entre as partes.
No exterior, principalmente no
hemisfério norte, pesquisas de público em museus vêm sendo amplamente
realizadas para definir várias questões, como “o perfil do visitante, seus
gostos, suas preferências culturais, sua opinião sobre a sua experiência vivida
no museu, o impacto cognitivo no visitante, acrescentando-lhe conhecimento”
(CARVALHO, 2005, p. 25). A realização dessas pesquisas possibilita que a Instituição
se planeje para um melhor trabalho, seja na divulgação de sua programação ou na
escolha organizacional de suas exposições. Conhecer seu visitante é essencial
para um museu que queira transmitir uma mensagem eficaz para seu usuário,
consequentemente fazendo-o voltar para uma nova visita.
No início do século XX, nos Estados
Unidos, já se demonstrava uma preocupação com o caráter tedioso das exposições
em museus. Observa-se isso no artigo de Benjamin Gillman, de 1916, “sobre a fadiga
nos museus, causada segundo ele, pelas vitrinas mal estruturadas (que as
pessoas têm que se curvar para enxergar), além do fato do museu ser um lugar
tenebroso, chato, um depósito de bric-à-brac” (ALMEIDA, 1995, p. 45).
Ainda
nos Estados Unidos, entre os anos de 1928 e 1931, Edward Robinson e Arthur
Melton realizaram estudos empíricos analisando o público nos museus. Desse modo,
pode-se observar que a preocupação com os visitantes não é de todo recente,
datando já dos primeiros vinte anos do século XX. Dando continuidade a essa
preocupação, verifica-se, a partir das décadas de 1960 e 1970, muito devido aos
estudos dos canadenses Duncan Cameron e P. S. Abbey, a visão do público de
museus norte-americanos e europeus como consumidor, ou seja, como um “indivíduo
flexível, com iniciativa, senso de responsabilidade e motivação pessoal”
(STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p. 133). As pesquisas começaram a traçar os
perfis dos visitantes e as motivações que os levam a um museu. Desse modo, uma esfera
vista como ambiente de estudantes e intelectuais “passou a ser relacionada mais
ao lazer, diversão e entretenimento do que à possibilidade de ganhos
cognitivos” (CARVALHO, 2005, p. 27).
Atualmente,
as pesquisas de público vêm tomando maior importância devido à carência de
visitações aos museus. Diferentemente das ideias concebidas durante a
trajetória da Instituição museológica, como nas coleções principescas do século
XIV ou nos freakshows dos Gabinetes
de Curiosidades, em que as coleções eram restritas a uma pequena parte da
sociedade, a intenção agora é aproximar o público como um todo para entrar em
contato com a Instituição. Essa aproximação desejada dos museus para com o
público já estava presente nos ideais de preocupações sociais dos movimentos
ocorridos na segunda metade do século XX, como a Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972 e
a Declaração de Quebec de 1984, estando até mesmo relacionada a questões
mercadológicas, com a ideia do visitante consumidor.
No Brasil, a preocupação com o
estudo de público em museus se concretizou bem mais tarde do que em lugares
como os Estados Unidos, o Canadá e a Europa. A partir da década de 1970, notam-se
pesquisas de alguma importância. Carvalho (2005, p. 28) cita em seu trabalho a
dissertação de mestrado de Cristina Sousa e Silva, assinalando:
[...] apenas quatro
pesquisas de certa relevância realizadas até 1989: a da Fundação Nacional
Pró-Memória com a ENCE/IBGE, (Pszczol, Leon e Carvalho, 1990), a do museu Lasar
Segall (1981) “Comportamentos, Atitudes e Motivações do Público”, a de Mário
Chagas (1987) “Museu: coisa velha, coisa antiga” e a de Tereza Cristina Moletta
Scheiner (1977) “Análise do Público da Floresta da Tijuca”.
Hoje, já se observa no Brasil a
prática mais difundida de pesquisas de público em museus, com a preocupação
cada vez maior de divulgação dessa Instituição de grande valor cultural e
social.
A visão cultural de museu aos poucos
vem sendo deixada de lado para uma conscientização desse local como um espaço repleto
de conhecimento. Contudo, ainda se pode notar certa resistência em vários
setores da sociedade que percebem os museus ainda como lugares tediosos, “depósitos
de coisas velhas, o que para muitos representa um lugar ‘chato’ para visitar”
(ALMEIDA; LOPES, 2003, p. 138). Para mudar esse quadro, as pesquisas de público
são essenciais. Conhecer o visitante, suas características pessoais,
expectativas, tempo que dispõe ou permanecerá no local, entre outras coisas, é
de suma importância para um bom relacionamento Instituição/visitante, fazendo-o
voltar e indicar o museu visitado.
Para entender os variados tipos de
visitantes e as percepções das exposições museológicas, inicialmente deve-se compreender
que estão sendo observados públicos de museus e o não público de uma forma
homogênea. Claro que existem casos pontuais em que se torna necessário observar
a palavra “público” no singular quando se estudam, por exemplo, público
escolar, público especial, entre outros. É importante notar que cada pessoa que
entra em contato com uma Instituição museológica receberá dela diferentes
conceitos, definindo e redefinindo o discurso da exposição, pois “cada
indivíduo-sujeito dá ênfase a um aspecto que lhe é particular” (CURY, 2004, p.
91). Roger Miles teoriza sobre três categorias de público: o público visitante,
o público potencial e o público alvo. O público visitante seria aquele que
realmente frequenta museus; o público potencial é aquele que se pretende
atingir na ação do museu, e o público alvo é selecionado dentro do público
potencial que se deseja atingir pelo museu por determinada ação ou programa.
Apesar de não ser citado por Miles, o levantamento do “não público” de museu é
de grande valia para compreender o que leva as pessoas a não visitarem os
museus.
Nesse
sentido, destaca-se o trabalho de pesquisa O “não público” dos museus:
levantamento estatístico sobre o “não-ir” a museus no Distrito Federal,
conduzido pela Coordenação de Pesquisa e Inovação Museal (CPIM) do Departamento
de Processos Museais (DEPMUS) do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). A
proposta dessa pesquisa é “a de apresentar um levantamento estatístico dos
motivos indicados pelos indivíduos para a não-frequência aos museus e as
condições sociais e econômicas com as quais tal opção se relaciona” (CPIM; DEPMUS;
IBRAM, 2012, p. 2). Foram entrevistadas 1.200 pessoas. Desse total, 920 pessoas,
ou seja, 76,67%, afirmaram não frequentar museus. Dado que a princípio choca
quem observa, requer-se um pouco mais de cuidado para tentar compreender os
motivos do afastamento desse possível público de museus. Em relação ao sexo, a
porcentagem dos não frequentadores de museus praticamente não apresentou
diferença. Nota-se na pesquisa que a situação financeira pode influenciar. A
porcentagem de não frequentadores de museus diminui conforme a situação
salarial aumenta. Nota-se também a mesma proporção decrescente na escolaridade.
Enquanto 100% declarados analfabetos não frequentam museus, 52,6% dos
entrevistados que têm pós-graduação não frequentam.
Dando
continuidade a essa pesquisa, é interessante salientar as justificativas para a
não frequentação de museus dadas pelos entrevistados. As razões das 920 pessoas
são as seguintes:
[...] 339 pessoas disseram que não frequentam porque
lhes falta tempo (36,8%); 39 disseram que falta dinheiro (4,2%); 142 disseram
que não conhecem nenhum museu em Brasília e por isso não frequentam (15,4%);
139 disseram que o problema era a dificuldade de acesso (15,1%); 186 disseram
que não frequentam porque não gostam ou não têm interesse em museus (20,2%); e
75 pessoas alegaram outras razões (8,2%). (CPIM; DEPMUS; IBRAM, 2012, p. 15.)
Nota-se que, entre as razões que
mais se destacam como justificativas para as pessoas não frequentarem museus,
estão em primeiro lugar a falta de tempo e em segundo a falta de interesse em
museus. Desse modo, compreende-se nessa pesquisa algo importante. Se o tempo
livre dessas pessoas está ligado a uma atividade prazerosa, logo o museu pode
ser entendido como um lugar tedioso e sem interesse por parte dos
entrevistados. Assim, os dois primeiros lugares das razões para as pessoas não frequentarem
museus se confundem. Mudar as estratégias dos museus para aproximar os
visitantes e afastar o estigma negativo se faz necessário. Em outra pesquisa
sobre a frequência e os hábitos culturais, realizada entre 1995 e 1996 em Belo
Horizonte, 720 pessoas, além de responderem perguntas relativas ao desinteresse
de frequentar um museu, foram solicitadas a responder questões sobre o que as
faria frequentá-lo. Novamente, o tempo era um dos maiores vilões.
Aproximar a população dos museus e
torná-los mais atrativos é um desafio dos profissionais das Instituições
museológicas. Pensar no “não público” de museu como público em potencial é
possível. Além de entender, o museu deve interagir e provocar seu visitante. É
de suma importância que museu e público interajam, havendo uma conversa entre exposição
e público. Se “não compartilham qualquer forma de identificação necessária para
o diálogo verbal ou não-verbal, a relação que pode ser construída na exposição
passa de potência à inércia” (MORAES, 2005). Por meio das pesquisas de público,
os museus podem organizar e rever suas estratégias de aproximação com a
população “e direcionar adequadamente sua divulgação se conhecerem mais a fundo
seu visitante. Desta forma, poderão criar estratégias para atrair o público que
ainda não os visita” (CARVALHO, 2005, p. 25). Estratégias que, apesar de simples,
poderiam resultar em grande êxito. Exemplo dessa simplicidade está no caso do
“Museu do Futebol, em São Paulo, onde colecionadores de
camisetas dos clubes se reúnem constantemente” (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 2013). As
reuniões são acolhidas pelo museu, recebendo uma adesão maior do público
visitante.
Portanto,
é possível, por meio das pesquisas, traçar o perfil dos frequentadores e não
frequentadores de museus; com isso, elas contribuem “para o entendimento da
natureza museal, da natureza da aprendizagem nesses espaços, do impacto dos
museus na sociedade” (STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p.
138). O museu precisa compreender as necessidades dos visitantes para melhor recebê-los
e principalmente conhecer o não público para trabalhar uma forma de aproximação
desses indivíduos. A Instituição museológica “precisa atender às necessidades
de lazer desses públicos” (STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p. 140). Se um dos
principais motivos para o não comparecimento às Instituições de grande parcela
do não público de museus foi a falta de tempo, logo esse tempo está sendo
despendido em algo que gera prazer para a pessoa, em algum local. Esse local
pode e deve ser o museu, que, com estratégias de aproximação e divulgação, com base
em estudos prévios, deixe o público à vontade, podendo compartilhar de momentos
de entretenimento e lazer em uma esfera de vasto conhecimento, preocupação
social e cultural.
REFERÊNCIAS
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informação e o público: Museologia e Ciência da Informação. In: ___ . As
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