sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA DE PÚBLICO: DESCOBRINDO E ATRAINDO O NÃO PÚBLICO DE MUSEUS



Em 1987, Mário Chagas coordenou na UNI-RIO uma pesquisa que alunos deveriam realizar nas ruas da cidade maravilhosa, com o objetivo de ouvir das pessoas o que a palavra museu fazia vir a sua mente. Hoje talvez se recebam ainda as mesmas respostas: “museus são apenas um lugar onde existem coisas velhas, objetos velhos (que o público visita)” (CHAGAS, 2013). Com um estigma negativo em relação à Instituição que deveria ser um centro de cultura e lazer, o museu gera ainda na maioria da população um sentimento de depósito de materiais antigos que servem apenas para ficar expostos ao longo do tempo. Para solucionar tal problema, é essencial a iniciativa de pesquisas em museus que façam conhecer melhor não só seus visitantes, mas também possíveis frequentadores para uma melhor relação dialógica entre as partes.
            No exterior, principalmente no hemisfério norte, pesquisas de público em museus vêm sendo amplamente realizadas para definir várias questões, como “o perfil do visitante, seus gostos, suas preferências culturais, sua opinião sobre a sua experiência vivida no museu, o impacto cognitivo no visitante, acrescentando-lhe conhecimento” (CARVALHO, 2005, p. 25). A realização dessas pesquisas possibilita que a Instituição se planeje para um melhor trabalho, seja na divulgação de sua programação ou na escolha organizacional de suas exposições. Conhecer seu visitante é essencial para um museu que queira transmitir uma mensagem eficaz para seu usuário, consequentemente fazendo-o voltar para uma nova visita.
            No início do século XX, nos Estados Unidos, já se demonstrava uma preocupação com o caráter tedioso das exposições em museus. Observa-se isso no artigo de Benjamin Gillman, de 1916, “sobre a fadiga nos museus, causada segundo ele, pelas vitrinas mal estruturadas (que as pessoas têm que se curvar para enxergar), além do fato do museu ser um lugar tenebroso, chato, um depósito de bric-à-brac” (ALMEIDA, 1995, p. 45).
Ainda nos Estados Unidos, entre os anos de 1928 e 1931, Edward Robinson e Arthur Melton realizaram estudos empíricos analisando o público nos museus. Desse modo, pode-se observar que a preocupação com os visitantes não é de todo recente, datando já dos primeiros vinte anos do século XX. Dando continuidade a essa preocupação, verifica-se, a partir das décadas de 1960 e 1970, muito devido aos estudos dos canadenses Duncan Cameron e P. S. Abbey, a visão do público de museus norte-americanos e europeus como consumidor, ou seja, como um “indivíduo flexível, com iniciativa, senso de responsabilidade e motivação pessoal” (STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p. 133). As pesquisas começaram a traçar os perfis dos visitantes e as motivações que os levam a um museu. Desse modo, uma esfera vista como ambiente de estudantes e intelectuais “passou a ser relacionada mais ao lazer, diversão e entretenimento do que à possibilidade de ganhos cognitivos” (CARVALHO, 2005, p. 27).  
Atualmente, as pesquisas de público vêm tomando maior importância devido à carência de visitações aos museus. Diferentemente das ideias concebidas durante a trajetória da Instituição museológica, como nas coleções principescas do século XIV ou nos freakshows dos Gabinetes de Curiosidades, em que as coleções eram restritas a uma pequena parte da sociedade, a intenção agora é aproximar o público como um todo para entrar em contato com a Instituição. Essa aproximação desejada dos museus para com o público já estava presente nos ideais de preocupações sociais dos movimentos ocorridos na segunda metade do século XX, como a Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972 e a Declaração de Quebec de 1984, estando até mesmo relacionada a questões mercadológicas, com a ideia do visitante consumidor.
            No Brasil, a preocupação com o estudo de público em museus se concretizou bem mais tarde do que em lugares como os Estados Unidos, o Canadá e a Europa. A partir da década de 1970, notam-se pesquisas de alguma importância. Carvalho (2005, p. 28) cita em seu trabalho a dissertação de mestrado de Cristina Sousa e Silva, assinalando:
[...] apenas quatro pesquisas de certa relevância realizadas até 1989: a da Fundação Nacional Pró-Memória com a ENCE/IBGE, (Pszczol, Leon e Carvalho, 1990), a do museu Lasar Segall (1981) “Comportamentos, Atitudes e Motivações do Público”, a de Mário Chagas (1987) “Museu: coisa velha, coisa antiga” e a de Tereza Cristina Moletta Scheiner (1977) “Análise do Público da Floresta da Tijuca”.

            Hoje, já se observa no Brasil a prática mais difundida de pesquisas de público em museus, com a preocupação cada vez maior de divulgação dessa Instituição de grande valor cultural e social.
            A visão cultural de museu aos poucos vem sendo deixada de lado para uma conscientização desse local como um espaço repleto de conhecimento. Contudo, ainda se pode notar certa resistência em vários setores da sociedade que percebem os museus ainda como lugares tediosos, “depósitos de coisas velhas, o que para muitos representa um lugar ‘chato’ para visitar” (ALMEIDA; LOPES, 2003, p. 138). Para mudar esse quadro, as pesquisas de público são essenciais. Conhecer o visitante, suas características pessoais, expectativas, tempo que dispõe ou permanecerá no local, entre outras coisas, é de suma importância para um bom relacionamento Instituição/visitante, fazendo-o voltar e indicar o museu visitado.
            Para entender os variados tipos de visitantes e as percepções das exposições museológicas, inicialmente deve-se compreender que estão sendo observados públicos de museus e o não público de uma forma homogênea. Claro que existem casos pontuais em que se torna necessário observar a palavra “público” no singular quando se estudam, por exemplo, público escolar, público especial, entre outros. É importante notar que cada pessoa que entra em contato com uma Instituição museológica receberá dela diferentes conceitos, definindo e redefinindo o discurso da exposição, pois “cada indivíduo-sujeito dá ênfase a um aspecto que lhe é particular” (CURY, 2004, p. 91). Roger Miles teoriza sobre três categorias de público: o público visitante, o público potencial e o público alvo. O público visitante seria aquele que realmente frequenta museus; o público potencial é aquele que se pretende atingir na ação do museu, e o público alvo é selecionado dentro do público potencial que se deseja atingir pelo museu por determinada ação ou programa. Apesar de não ser citado por Miles, o levantamento do “não público” de museu é de grande valia para compreender o que leva as pessoas a não visitarem os museus.
Nesse sentido, destaca-se o trabalho de pesquisa O “não público” dos museus: levantamento estatístico sobre o “não-ir” a museus no Distrito Federal, conduzido pela Coordenação de Pesquisa e Inovação Museal (CPIM) do Departamento de Processos Museais (DEPMUS) do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). A proposta dessa pesquisa é “a de apresentar um levantamento estatístico dos motivos indicados pelos indivíduos para a não-frequência aos museus e as condições sociais e econômicas com as quais tal opção se relaciona” (CPIM; DEPMUS; IBRAM, 2012, p. 2). Foram entrevistadas 1.200 pessoas. Desse total, 920 pessoas, ou seja, 76,67%, afirmaram não frequentar museus. Dado que a princípio choca quem observa, requer-se um pouco mais de cuidado para tentar compreender os motivos do afastamento desse possível público de museus. Em relação ao sexo, a porcentagem dos não frequentadores de museus praticamente não apresentou diferença. Nota-se na pesquisa que a situação financeira pode influenciar. A porcentagem de não frequentadores de museus diminui conforme a situação salarial aumenta. Nota-se também a mesma proporção decrescente na escolaridade. Enquanto 100% declarados analfabetos não frequentam museus, 52,6% dos entrevistados que têm pós-graduação não frequentam.
Dando continuidade a essa pesquisa, é interessante salientar as justificativas para a não frequentação de museus dadas pelos entrevistados. As razões das 920 pessoas são as seguintes:
[...] 339 pessoas disseram que não frequentam porque lhes falta tempo (36,8%); 39 disseram que falta dinheiro (4,2%); 142 disseram que não conhecem nenhum museu em Brasília e por isso não frequentam (15,4%); 139 disseram que o problema era a dificuldade de acesso (15,1%); 186 disseram que não frequentam porque não gostam ou não têm interesse em museus (20,2%); e 75 pessoas alegaram outras razões (8,2%). (CPIM; DEPMUS; IBRAM, 2012, p. 15.)

            Nota-se que, entre as razões que mais se destacam como justificativas para as pessoas não frequentarem museus, estão em primeiro lugar a falta de tempo e em segundo a falta de interesse em museus. Desse modo, compreende-se nessa pesquisa algo importante. Se o tempo livre dessas pessoas está ligado a uma atividade prazerosa, logo o museu pode ser entendido como um lugar tedioso e sem interesse por parte dos entrevistados. Assim, os dois primeiros lugares das razões para as pessoas não frequentarem museus se confundem. Mudar as estratégias dos museus para aproximar os visitantes e afastar o estigma negativo se faz necessário. Em outra pesquisa sobre a frequência e os hábitos culturais, realizada entre 1995 e 1996 em Belo Horizonte, 720 pessoas, além de responderem perguntas relativas ao desinteresse de frequentar um museu, foram solicitadas a responder questões sobre o que as faria frequentá-lo. Novamente, o tempo era um dos maiores vilões.
            Aproximar a população dos museus e torná-los mais atrativos é um desafio dos profissionais das Instituições museológicas. Pensar no “não público” de museu como público em potencial é possível. Além de entender, o museu deve interagir e provocar seu visitante. É de suma importância que museu e público interajam, havendo uma conversa entre exposição e público. Se “não compartilham qualquer forma de identificação necessária para o diálogo verbal ou não-verbal, a relação que pode ser construída na exposição passa de potência à inércia” (MORAES, 2005). Por meio das pesquisas de público, os museus podem organizar e rever suas estratégias de aproximação com a população “e direcionar adequadamente sua divulgação se conhecerem mais a fundo seu visitante. Desta forma, poderão criar estratégias para atrair o público que ainda não os visita” (CARVALHO, 2005, p. 25). Estratégias que, apesar de simples, poderiam resultar em grande êxito. Exemplo dessa simplicidade está no caso do “Museu do Futebol, em São Paulo, onde colecionadores de camisetas dos clubes se reúnem constantemente” (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 2013). As reuniões são acolhidas pelo museu, recebendo uma adesão maior do público visitante.
            Portanto, é possível, por meio das pesquisas, traçar o perfil dos frequentadores e não frequentadores de museus; com isso, elas contribuem “para o entendimento da natureza museal, da natureza da aprendizagem nesses espaços, do impacto dos museus na sociedade” (STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p. 138). O museu precisa compreender as necessidades dos visitantes para melhor recebê-los e principalmente conhecer o não público para trabalhar uma forma de aproximação desses indivíduos. A Instituição museológica “precisa atender às necessidades de lazer desses públicos” (STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p. 140). Se um dos principais motivos para o não comparecimento às Instituições de grande parcela do não público de museus foi a falta de tempo, logo esse tempo está sendo despendido em algo que gera prazer para a pessoa, em algum local. Esse local pode e deve ser o museu, que, com estratégias de aproximação e divulgação, com base em estudos prévios, deixe o público à vontade, podendo compartilhar de momentos de entretenimento e lazer em uma esfera de vasto conhecimento, preocupação social e cultural.
                  REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Adriana Mortara. Estudos de público: a avaliação de exposição como instrumento para compreender um processo de comunicação. In: ___ . A relação do público com o Instituto Butatan: análise da exposição “Na natureza não existem vilões”. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade de São Paulo – USP, 1995. p. 44-58.

ALMEIDA, Adriana Mortara; LOPES, Maria Margaret. Modelos de comunicação aplicados aos estudos de públicos de museus. Revista Ciências Humanas, Taubaté, v. 09, n. 02, Jul-Dez/2003. p. 137-145.

CARVALHO, Rosane Maria Rocha. A informação e o público: Museologia e Ciência da Informação. In: ___ . As transformações da relação museu e público: a influência das tecnologias da informação e comunicação no desenvolvimento de um público virtual. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Escola de Comunicação – ECO, Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – IBICT, 2005. p. 25-45.

CHAGAS, Mário. Cultura, Patrimônio e Memória. Revista Museu, 2013. Revista digital. Disponível em: < http://www.revistamuseu.com.br/18demaio/artigos.asp?id=5986>. Acesso em: 24 set. 2013. 
CPIM; DEPMUS; IBRAM. Relatório final da pesquisa o “não público” dos museus: levantamento estatístico sobre o “não-ir” a museus no Distrito Federal. Brasília, 2012. Disponível em: http://www.museus.gov.br/wp-content/uploads/2013/05/PesquisaNAOpublico_RELATORIOmaio2013.pdf. Acesso em: 24 set. 2013. 

CURY, Marília Xavier. Os usos que o público faz do museu: a (re) significação da cultura material e do museu. Revista Brasileira de Museus e Museologia, n. 01, v. 01. Rio de Janeiro: IPAHN/DEMU, 2004. p. 88-106.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Museus precisam ouvir o público para sobreviverem no século XXI. Diário de Pernambuco, 2012. Jornal digital. Disponível em: <www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2012/11/27/internas_viver,409777/museus-precisam-ouvir-o-publico-para-sobreviverem-no-seculo-xxi.shtml>. Acesso em: 24 set. 2013. 

MORAES, Julia Nolasco Leitão de. Museu e público: uma possível relação de diálogo. In: Documentos de Base do XIV Encuentro Regional do ICOFOM LAM: Museologia y Patrimonio: interpretación y comunicación en América Latina y el Caribe. ICOFOM LAM, 2005.

STUDART, Denise Coelho; ALMEIDA, Adriana Mortara; VALENTE, Esther. Pesquisa de Público em Museus: Desenvolvimento e Perspectivas. In: GOUVÊA, Guaracira; LEAL, Maria Cristina; MARANDINO, Martha (orgs.). Educação e Museu: A construção social do caráter educativo dos museus de ciência. Rio de Janeiro: Acess, 2003. p. 129-157.

Nenhum comentário:

Postar um comentário