sábado, 28 de setembro de 2013

Primavera dos Museus: A cultura afro-brasileira



            Entre os dias 23 e 29 de setembro de 2013, aconteceu, em todo o território brasileiro, a 7ª primavera dos museus, tendo como tema a cultura afro-brasileira.
            No dia 26 de setembro, ocorreu, no Museu Júlio de Castilhos, uma mesa redonda sobre “A Cultura Afro-brasileira nas Instituições de Memória”, com a participação do Prof. Dr. Iosvaldyr Carvalho Bittencout Júnior e o Me. Pedro Rubens Vargas.
            Chamou atenção a dificuldade que ainda existe, em todas as instituições sociais, de trabalhar com a memória e a cultura negra em nosso país.  A imagem do negro, muitas vezes depreciada, é observada em nossas instituições de modo a reforçar apenas o sofrimento de seus antepassados escravos, e sua rica cultura, predominante em nosso país, passa despercebida. Não é raro encontrarmos o reforço de um discurso preconceituoso em lugares como museus, escolas (materiais pedagógicos) e principalmente por parte de uma mídia segregacionista.
            É importante notar que existem, em contraponto, instituições que lutam para a preservação do contexto sociocultural da cultura afro-brasileira. Temos ainda dificuldades de reconhecer a legitimidade da cultura negra em um país multirracial de contribuição maciça dos negros.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA DE PÚBLICO: DESCOBRINDO E ATRAINDO O NÃO PÚBLICO DE MUSEUS



Em 1987, Mário Chagas coordenou na UNI-RIO uma pesquisa que alunos deveriam realizar nas ruas da cidade maravilhosa, com o objetivo de ouvir das pessoas o que a palavra museu fazia vir a sua mente. Hoje talvez se recebam ainda as mesmas respostas: “museus são apenas um lugar onde existem coisas velhas, objetos velhos (que o público visita)” (CHAGAS, 2013). Com um estigma negativo em relação à Instituição que deveria ser um centro de cultura e lazer, o museu gera ainda na maioria da população um sentimento de depósito de materiais antigos que servem apenas para ficar expostos ao longo do tempo. Para solucionar tal problema, é essencial a iniciativa de pesquisas em museus que façam conhecer melhor não só seus visitantes, mas também possíveis frequentadores para uma melhor relação dialógica entre as partes.
            No exterior, principalmente no hemisfério norte, pesquisas de público em museus vêm sendo amplamente realizadas para definir várias questões, como “o perfil do visitante, seus gostos, suas preferências culturais, sua opinião sobre a sua experiência vivida no museu, o impacto cognitivo no visitante, acrescentando-lhe conhecimento” (CARVALHO, 2005, p. 25). A realização dessas pesquisas possibilita que a Instituição se planeje para um melhor trabalho, seja na divulgação de sua programação ou na escolha organizacional de suas exposições. Conhecer seu visitante é essencial para um museu que queira transmitir uma mensagem eficaz para seu usuário, consequentemente fazendo-o voltar para uma nova visita.
            No início do século XX, nos Estados Unidos, já se demonstrava uma preocupação com o caráter tedioso das exposições em museus. Observa-se isso no artigo de Benjamin Gillman, de 1916, “sobre a fadiga nos museus, causada segundo ele, pelas vitrinas mal estruturadas (que as pessoas têm que se curvar para enxergar), além do fato do museu ser um lugar tenebroso, chato, um depósito de bric-à-brac” (ALMEIDA, 1995, p. 45).
Ainda nos Estados Unidos, entre os anos de 1928 e 1931, Edward Robinson e Arthur Melton realizaram estudos empíricos analisando o público nos museus. Desse modo, pode-se observar que a preocupação com os visitantes não é de todo recente, datando já dos primeiros vinte anos do século XX. Dando continuidade a essa preocupação, verifica-se, a partir das décadas de 1960 e 1970, muito devido aos estudos dos canadenses Duncan Cameron e P. S. Abbey, a visão do público de museus norte-americanos e europeus como consumidor, ou seja, como um “indivíduo flexível, com iniciativa, senso de responsabilidade e motivação pessoal” (STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p. 133). As pesquisas começaram a traçar os perfis dos visitantes e as motivações que os levam a um museu. Desse modo, uma esfera vista como ambiente de estudantes e intelectuais “passou a ser relacionada mais ao lazer, diversão e entretenimento do que à possibilidade de ganhos cognitivos” (CARVALHO, 2005, p. 27).  
Atualmente, as pesquisas de público vêm tomando maior importância devido à carência de visitações aos museus. Diferentemente das ideias concebidas durante a trajetória da Instituição museológica, como nas coleções principescas do século XIV ou nos freakshows dos Gabinetes de Curiosidades, em que as coleções eram restritas a uma pequena parte da sociedade, a intenção agora é aproximar o público como um todo para entrar em contato com a Instituição. Essa aproximação desejada dos museus para com o público já estava presente nos ideais de preocupações sociais dos movimentos ocorridos na segunda metade do século XX, como a Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972 e a Declaração de Quebec de 1984, estando até mesmo relacionada a questões mercadológicas, com a ideia do visitante consumidor.
            No Brasil, a preocupação com o estudo de público em museus se concretizou bem mais tarde do que em lugares como os Estados Unidos, o Canadá e a Europa. A partir da década de 1970, notam-se pesquisas de alguma importância. Carvalho (2005, p. 28) cita em seu trabalho a dissertação de mestrado de Cristina Sousa e Silva, assinalando:
[...] apenas quatro pesquisas de certa relevância realizadas até 1989: a da Fundação Nacional Pró-Memória com a ENCE/IBGE, (Pszczol, Leon e Carvalho, 1990), a do museu Lasar Segall (1981) “Comportamentos, Atitudes e Motivações do Público”, a de Mário Chagas (1987) “Museu: coisa velha, coisa antiga” e a de Tereza Cristina Moletta Scheiner (1977) “Análise do Público da Floresta da Tijuca”.

            Hoje, já se observa no Brasil a prática mais difundida de pesquisas de público em museus, com a preocupação cada vez maior de divulgação dessa Instituição de grande valor cultural e social.
            A visão cultural de museu aos poucos vem sendo deixada de lado para uma conscientização desse local como um espaço repleto de conhecimento. Contudo, ainda se pode notar certa resistência em vários setores da sociedade que percebem os museus ainda como lugares tediosos, “depósitos de coisas velhas, o que para muitos representa um lugar ‘chato’ para visitar” (ALMEIDA; LOPES, 2003, p. 138). Para mudar esse quadro, as pesquisas de público são essenciais. Conhecer o visitante, suas características pessoais, expectativas, tempo que dispõe ou permanecerá no local, entre outras coisas, é de suma importância para um bom relacionamento Instituição/visitante, fazendo-o voltar e indicar o museu visitado.
            Para entender os variados tipos de visitantes e as percepções das exposições museológicas, inicialmente deve-se compreender que estão sendo observados públicos de museus e o não público de uma forma homogênea. Claro que existem casos pontuais em que se torna necessário observar a palavra “público” no singular quando se estudam, por exemplo, público escolar, público especial, entre outros. É importante notar que cada pessoa que entra em contato com uma Instituição museológica receberá dela diferentes conceitos, definindo e redefinindo o discurso da exposição, pois “cada indivíduo-sujeito dá ênfase a um aspecto que lhe é particular” (CURY, 2004, p. 91). Roger Miles teoriza sobre três categorias de público: o público visitante, o público potencial e o público alvo. O público visitante seria aquele que realmente frequenta museus; o público potencial é aquele que se pretende atingir na ação do museu, e o público alvo é selecionado dentro do público potencial que se deseja atingir pelo museu por determinada ação ou programa. Apesar de não ser citado por Miles, o levantamento do “não público” de museu é de grande valia para compreender o que leva as pessoas a não visitarem os museus.
Nesse sentido, destaca-se o trabalho de pesquisa O “não público” dos museus: levantamento estatístico sobre o “não-ir” a museus no Distrito Federal, conduzido pela Coordenação de Pesquisa e Inovação Museal (CPIM) do Departamento de Processos Museais (DEPMUS) do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). A proposta dessa pesquisa é “a de apresentar um levantamento estatístico dos motivos indicados pelos indivíduos para a não-frequência aos museus e as condições sociais e econômicas com as quais tal opção se relaciona” (CPIM; DEPMUS; IBRAM, 2012, p. 2). Foram entrevistadas 1.200 pessoas. Desse total, 920 pessoas, ou seja, 76,67%, afirmaram não frequentar museus. Dado que a princípio choca quem observa, requer-se um pouco mais de cuidado para tentar compreender os motivos do afastamento desse possível público de museus. Em relação ao sexo, a porcentagem dos não frequentadores de museus praticamente não apresentou diferença. Nota-se na pesquisa que a situação financeira pode influenciar. A porcentagem de não frequentadores de museus diminui conforme a situação salarial aumenta. Nota-se também a mesma proporção decrescente na escolaridade. Enquanto 100% declarados analfabetos não frequentam museus, 52,6% dos entrevistados que têm pós-graduação não frequentam.
Dando continuidade a essa pesquisa, é interessante salientar as justificativas para a não frequentação de museus dadas pelos entrevistados. As razões das 920 pessoas são as seguintes:
[...] 339 pessoas disseram que não frequentam porque lhes falta tempo (36,8%); 39 disseram que falta dinheiro (4,2%); 142 disseram que não conhecem nenhum museu em Brasília e por isso não frequentam (15,4%); 139 disseram que o problema era a dificuldade de acesso (15,1%); 186 disseram que não frequentam porque não gostam ou não têm interesse em museus (20,2%); e 75 pessoas alegaram outras razões (8,2%). (CPIM; DEPMUS; IBRAM, 2012, p. 15.)

            Nota-se que, entre as razões que mais se destacam como justificativas para as pessoas não frequentarem museus, estão em primeiro lugar a falta de tempo e em segundo a falta de interesse em museus. Desse modo, compreende-se nessa pesquisa algo importante. Se o tempo livre dessas pessoas está ligado a uma atividade prazerosa, logo o museu pode ser entendido como um lugar tedioso e sem interesse por parte dos entrevistados. Assim, os dois primeiros lugares das razões para as pessoas não frequentarem museus se confundem. Mudar as estratégias dos museus para aproximar os visitantes e afastar o estigma negativo se faz necessário. Em outra pesquisa sobre a frequência e os hábitos culturais, realizada entre 1995 e 1996 em Belo Horizonte, 720 pessoas, além de responderem perguntas relativas ao desinteresse de frequentar um museu, foram solicitadas a responder questões sobre o que as faria frequentá-lo. Novamente, o tempo era um dos maiores vilões.
            Aproximar a população dos museus e torná-los mais atrativos é um desafio dos profissionais das Instituições museológicas. Pensar no “não público” de museu como público em potencial é possível. Além de entender, o museu deve interagir e provocar seu visitante. É de suma importância que museu e público interajam, havendo uma conversa entre exposição e público. Se “não compartilham qualquer forma de identificação necessária para o diálogo verbal ou não-verbal, a relação que pode ser construída na exposição passa de potência à inércia” (MORAES, 2005). Por meio das pesquisas de público, os museus podem organizar e rever suas estratégias de aproximação com a população “e direcionar adequadamente sua divulgação se conhecerem mais a fundo seu visitante. Desta forma, poderão criar estratégias para atrair o público que ainda não os visita” (CARVALHO, 2005, p. 25). Estratégias que, apesar de simples, poderiam resultar em grande êxito. Exemplo dessa simplicidade está no caso do “Museu do Futebol, em São Paulo, onde colecionadores de camisetas dos clubes se reúnem constantemente” (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 2013). As reuniões são acolhidas pelo museu, recebendo uma adesão maior do público visitante.
            Portanto, é possível, por meio das pesquisas, traçar o perfil dos frequentadores e não frequentadores de museus; com isso, elas contribuem “para o entendimento da natureza museal, da natureza da aprendizagem nesses espaços, do impacto dos museus na sociedade” (STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p. 138). O museu precisa compreender as necessidades dos visitantes para melhor recebê-los e principalmente conhecer o não público para trabalhar uma forma de aproximação desses indivíduos. A Instituição museológica “precisa atender às necessidades de lazer desses públicos” (STUDART; ALMEIDA; VALENTE, 2003, p. 140). Se um dos principais motivos para o não comparecimento às Instituições de grande parcela do não público de museus foi a falta de tempo, logo esse tempo está sendo despendido em algo que gera prazer para a pessoa, em algum local. Esse local pode e deve ser o museu, que, com estratégias de aproximação e divulgação, com base em estudos prévios, deixe o público à vontade, podendo compartilhar de momentos de entretenimento e lazer em uma esfera de vasto conhecimento, preocupação social e cultural.
                  REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Adriana Mortara. Estudos de público: a avaliação de exposição como instrumento para compreender um processo de comunicação. In: ___ . A relação do público com o Instituto Butatan: análise da exposição “Na natureza não existem vilões”. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade de São Paulo – USP, 1995. p. 44-58.

ALMEIDA, Adriana Mortara; LOPES, Maria Margaret. Modelos de comunicação aplicados aos estudos de públicos de museus. Revista Ciências Humanas, Taubaté, v. 09, n. 02, Jul-Dez/2003. p. 137-145.

CARVALHO, Rosane Maria Rocha. A informação e o público: Museologia e Ciência da Informação. In: ___ . As transformações da relação museu e público: a influência das tecnologias da informação e comunicação no desenvolvimento de um público virtual. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Escola de Comunicação – ECO, Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – IBICT, 2005. p. 25-45.

CHAGAS, Mário. Cultura, Patrimônio e Memória. Revista Museu, 2013. Revista digital. Disponível em: < http://www.revistamuseu.com.br/18demaio/artigos.asp?id=5986>. Acesso em: 24 set. 2013. 
CPIM; DEPMUS; IBRAM. Relatório final da pesquisa o “não público” dos museus: levantamento estatístico sobre o “não-ir” a museus no Distrito Federal. Brasília, 2012. Disponível em: http://www.museus.gov.br/wp-content/uploads/2013/05/PesquisaNAOpublico_RELATORIOmaio2013.pdf. Acesso em: 24 set. 2013. 

CURY, Marília Xavier. Os usos que o público faz do museu: a (re) significação da cultura material e do museu. Revista Brasileira de Museus e Museologia, n. 01, v. 01. Rio de Janeiro: IPAHN/DEMU, 2004. p. 88-106.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Museus precisam ouvir o público para sobreviverem no século XXI. Diário de Pernambuco, 2012. Jornal digital. Disponível em: <www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2012/11/27/internas_viver,409777/museus-precisam-ouvir-o-publico-para-sobreviverem-no-seculo-xxi.shtml>. Acesso em: 24 set. 2013. 

MORAES, Julia Nolasco Leitão de. Museu e público: uma possível relação de diálogo. In: Documentos de Base do XIV Encuentro Regional do ICOFOM LAM: Museologia y Patrimonio: interpretación y comunicación en América Latina y el Caribe. ICOFOM LAM, 2005.

STUDART, Denise Coelho; ALMEIDA, Adriana Mortara; VALENTE, Esther. Pesquisa de Público em Museus: Desenvolvimento e Perspectivas. In: GOUVÊA, Guaracira; LEAL, Maria Cristina; MARANDINO, Martha (orgs.). Educação e Museu: A construção social do caráter educativo dos museus de ciência. Rio de Janeiro: Acess, 2003. p. 129-157.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A construção cultural do gaúcho



               Para todo gaúcho, já é costume todos os anos, no mês de setembro, seguir até o Parque Harmonia em Porto Alegre para comemorar a Revolução Farroupilha. Nesse mês, o parque fica lotado de pessoas com trajes típicos em alojamentos chamados de Piquetes pelos frequentadores.
            Há uma questão muito interessante em relação a essa data tão comemorada pelos tradicionalistas do sul do Brasil, que Luís Augusto Farinatti debate em seu artigo “O gaúcho e os outros”, que é a construção do mito do gaúcho.
            No dia 19 de setembro, um dia antes da data ápice da comemoração, os alunos do curso de Museologia, da disciplina Museologia no Mundo Contemporâneo, encontraram-se em um Piquete para debater a legitimidade da construção cultural do gaúcho.
            O debate gerou-se na eficácia da difusão dessa cultura, criada no século XX. Em seu trabalho, Farinatti comenta o sucesso da construção do mito do gaúcho e sua identificação com o povo, argumentando que, por si só, o Movimento de Tradições Gaúchas não teria tanta força para trabalhar essa difusão, afirmando que fatores como o midiático e até mesmo fatores políticos contribuíram para a instalação desse sentimento no povo gaúcho.
            As perguntas que ficam são: será que todos os gaúchos se identificam com a figura mítica do gaúcho? Por que essa visão é socialmente aceita pela sociedade do Rio Grande do Sul?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Reflexão sobre o filme "Narradores de Javé"



           Este trabalho tem como proposta uma comparação entre o filme Narradores de Javé, da diretora Eliane Caffé, filmado em 2003, e os conceitos de cultura, memória e patrimônio cultural trabalhados na disciplina de Iniciação à Museologia, com o objetivo de uma reflexão sobre o assunto no caso brasileiro, tendo em vista suas estratégias no âmbito de preservar o patrimônio cultural nacional ao longo da história.
            O filme Narradores de Javé tem início com uma conversa casual em um pequeno bar à beira de um rio, quando Zaqueu conta, com ar saudosista, a história de sua antiga cidade chamada Javé, situada no sertão baiano, a qual sumiu com a construção de uma represa. Segundo os relatos de Zaqueu, com o intuito de salvar Javé da inundação, os moradores procuram Antônio Biá, o único morador do vilarejo que sabe escrever. A ideia era escrever os feitos da cidade em um livro em colaboração com os moradores para transformar Javé, segundo Zaqueu, “em patrimônio histórico de valor comprovado em documento científico”. Por outro lado, Biá é extremamente odiado pela população, pois, devido à provável extinção de seu cargo nos correios, ligado diretamente ao analfabetismo de Javé, Biá mandava cartas contando fofocas dos moradores da cidade.
            Ao longo do filme, notamos uma tentativa de Biá, apesar das traquinagens, de um resgate da cultura de Javé através da memória, da história oral. Apesar da ideia de cultura que muitas pessoas têm, ligada a uma pessoa intelectual, inteligente, culta no sentido literal da palavra ou até mesmo nascida em uma família de certo padrão financeiro, aqui entendemos de uma forma mais técnica. Segundo Laraia (2006, p. 28), expondo as ideias de Tylor, a cultura é “todo comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de uma transmissão genética, como diríamos hoje”. Deste modo, vemos o povo de Javé rico culturalmente. Podemos ainda notar que, apesar de não citar a idade da cidade, o personagem Biá, de certo modo como ouvinte, vai desvendando o vilarejo com aquilo que, segundo Laraia (2006, p. 36), Franz Boas chamou de particularismo histórico, ou seja, “cada cultura segue seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou”. Assim, não podemos descaracterizar o povoado de Javé culturalmente, uma vez que a história é contada e recontada diversas vezes por seus moradores.
            É interessante notar que a todo o momento há uma ressignificação da história de Javé. Como já citado, a falta de pessoas letradas na cidade fez com que não houvesse documentos que contassem a história da cidade. Então, a todo o instante a memória de Javé é apresentada de modo controverso, pois claramente as pessoas, não só na ficção, tendem a manipular a história em seu favor. O próprio Biá durante o filme diz a um de seus relatores que “uma coisa é o fato acontecido, outra coisa é o fato escrito. O acontecido tem que ser melhorado no escrito, de uma forma melhor, para que o povo creia no acontecido”. Se analisarmos de uma forma histórica, faz muito sentido o que Antônio Biá comenta, bastando uma rápida leitura nos documentos históricos que resgatam a memória do povo brasileiro. Deste modo, a análise da memória social é extremamente complicada, pensando no sentido polissêmico do conceito, não podendo essa memória ser estudada por esta ou aquela disciplina, e sim sendo entendida no seu contexto cultural e social, pois não se pode esquecer que a memória se gera no presente de fatos acontecidos no passado.  Jô Gondar (2005, p. 18) nos lembra muito bem, e cabe aqui relacionar de forma direta com Narradores de Javé, que “toda a perspectiva envolve a escolha de um passado e a aposta em um futuro”, ficando clara a intencionalidade do livro de Javé, com os fatos heroicos do passado de seu povo com o intuito de provar o valor histórico-cultural da cidade para impedir a iminente inundação.
            Vale retomar a ideia expressada pelo personagem Zaqueu em relação à solução do problema “javélico”, que estava precisamente em “transformar a cidade em patrimônio histórico” para não ser apagada dos mapas. Cabe lembrar que, em um primeiro momento, podemos até olhar para Javé com certo preconceito devido a sua situação precária. Contudo, devemos ter como foco o fato de que a identidade de um país não se faz apenas de povos tidos como dominantes. Nesse caso, essa identidade que caracteriza o Brasil está ligada ao final do século XVIII, com a Revolução Francesa, momento em que todos contribuem, não só uma elite dominante, para um melhor esclarecimento de nossas raízes. No caso da obra cinematográfica, a estratégia é exatamente essa, preservar a identidade de um povo. No âmbito científico, graças à contribuição do francês Hugues de Varine-Bohan, citado por Lemos (1987, p. 8), podemos entender o Patrimônio Cultural de modo bem amplo, pois foi o professor Varine-Bohan “quem nos fez encarar a problemática do Patrimônio Cultural de modo mais abrangente”. Deste modo, Javé iria enquadrar-se de alguma forma nas três divisões de elementos sugeridas pelo professor francês.
            A ideia de preservação do Patrimônio Cultural não é de agora, muito menos do filme Narradores de Javé. A luta para a preservação de nossas memórias vem do século XVIII. Apesar de iniciar com um nobre português, com o intuito de “resgatar” o Palácio das Duas Torres em Pernambuco, essa ideia tomou força mesmo no século XX. Vale lembrar que passamos pelo século XIX tentando nos esquecer de nossos dominadores europeus destruindo nossas memórias, apesar de ainda termos um imperador europeu no comando de nosso manipulável Brasil. Voltando ao século XX, a partir dos anos vinte vemos uma tentativa de preservação do nosso patrimônio. Contudo, a intenção não era a preservação do patrimônio popular, e sim a de um nacionalismo principalmente ligado aos bens imóveis, inclusive tendo como uma das figuras centrais o integralista Gustavo Barroso. Cabe aqui lembrar que, se Javé estivesse situada nesse contexto, não se teria sequer cogitado a ideia de se escrever o livro dos causos “javélicos”. De qualquer forma, a ideia mais consistente para a preservação do Patrimônio Cultural no Brasil tem seus primeiros passos na década de 1920.
            A década de 1930 é muito importante no que diz respeito às questões de preservação, a se contar pelo convite do Governo Federal ao escritor Mário de Andrade para a criação de um órgão ligado à preservação do patrimônio histórico e artístico nacional. O anteprojeto de Mário de Andrade nos mostra a surpreendente visão deste homem, pondo lado a lado tanto as manifestações eruditas quanto as populares. Tal feito pode nos parecer sem importância, mas na época não era comum se pensar assim. A entrada do poeta na questão de preservação do nosso patrimônio resultou ainda na criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).
            No projeto de Mário de Andrade havia oito categorias para as obras de arte, sendo elas: arte arqueológica, ameríndia, popular, histórica, erudita nacional, erudita estrangeira, aplicadas nacionais e aplicadas estrangeiras. Em uma rápida comparação com o filme Narradores de Javé, poderíamos talvez tentar enquadrar Javé, com a intenção de salva-lá, em alguma dessas categorias. Vejamos: na arte ameríndia, poderíamos retratar as lendas, pois, apesar de não ser citado nada de muito relevante, vemos que os moradores da cidade têm o dom de rememorar o passado, bastando prestar atenção nas histórias de Indaléscio e Maria Dina. Além da arte ameríndia, poderíamos incluir a arte popular e a histórica, vistas claramente ao longo do filme.
            Portanto, é a partir dos anos 2000 que começamos a ter uma visão mais real do que nos remete verdadeiramente para a memória e a cultura do nosso povo. A valorização do patrimônio imaterial, aquele de extrema valia para pessoas humildes, porém riquíssimas culturalmente como as de Javé, começa a ocorrer no âmbito de sua história e identidade. Como vimos, a evolução no desejo de preservar tem um longo caminho percorrido e que talvez jamais se complete devido à complexidade do tema. A ideia de se preservar o patrimônio não físico é um passo à frente, haja vista que não só o monumento em si contém uma grande história para nos contar, como também a tradição, os costumes, o não palpável nos revelam muito de nossas origens.

 Referências
 GONDAR, Jô. Quatro proposições sobre memória social. In: GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera (Org.). O que é memória social? Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria/Programa de Pós-graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005. p. 11-26.
LARAIA, Roque de Barros. Da natureza da cultura ou da natureza à cultura. In: ___. Cultura, um conceito antropológico. 20. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. p. 25-52.
LEMOS, Carlos. O que é patrimônio histórico. São Paulo: Brasiliense, 1987.